SENTIR PELO OUTRO

   

 

 

 

 

SENTIR PELO OUTRO

 

Lêda Mello

 

É comum escutarmos pessoas desculpando-se

com frases como estas, ou semelhantes:

- "Vim pedir desculpas por fulano."

- "Estou envergonhada pelo que fulano fez!"

Ou, então, embaraçadas,

evitam o contato com o "ofendido".

 

 

As pessoas que agem assim

estão movidas pelas melhores intenções

e sentem, de fato, o que expressam.

Elas estão se redimindo do que consideram

uma "falta" cometida pelo outro,

na certeza de que tal atitude

é uma expressão do amor que sentem

e um ato de lealdade para com o outro.

 

 

É um comportamento compreensível

até mesmo por ser corriqueiro.

No entanto, embora compreensível e corriqueiro,

trata-se de uma transferência:

Transferência de Responsabilidade.

 

 

Por mais solidários, fiéis e amorosos

que sejamos para com o outro,

jamais será possível assumirmos

o que a ele é inerente.

Isto é verdadeiro desde uma simples dor de cabeça

até a mais complexa situação existencial.

 

 

Você pode oferecer um analgésico,

uma acomodação confortável, a sua presença solidária,

para alguém que esteja sentindo uma dor de cabeça.

Contudo, não sentirá a dor do outro.

É algo pessoal e intransferível.

Da mesma forma, acontece com os comportamentos.

 

 

 

Por maior que seja a sua ligação

com alguém que se comportou de uma maneira

que você considera "faltosa",

o comportamento é responsabilidade

de quem o praticou.

Deste modo, que ele sinta a sua responsabilidade

e que, se for de sua vontade,

assuma a sua própria redenção.

São oportunidades de crescimento e de progresso.

 

 

Pedir desculpas pelo outro,

esquivar-se, envergonhado, pelo comportamento do outro

é assumir a responsabilidade do outro,

e não são atitudes isoladas.

Fazem parte de um contexto mais amplo.

Costumam estar acompanhadas

de situações em que o fato se repete

em outros aspectos da vida dessa pessoa.

 

 

É importante observarmos

que quando assumimos as responsabilidades

pelos atos e palavras de outra pessoa

estamos lhe privando de oportunidades de crescimento.

Não apenas de oportunidades,

como de um direito.

A melhor forma de expressar o nosso amor por alguém

é permitindo que ele cresça

para que cresçamos junto com ele.

 

Arapiraca (AL), 28.11.2005